Apesar da NR-1, apenas 44% das empresas mapeiam riscos de saúde mental no Brasil

Publicado em 21 de janeiro de 2026

O combate ao assédio moral e sexual ganhou espaço na agenda corporativa brasileira nos últimos anos, mas ainda enfrenta entraves estruturais importantes. É o que aponta a segunda edição da "Pesquisa Nacional sobre a Maturidade no Combate ao Assédio no Brasil – Panorama 2026", realizada pela Protiviti, consultoria global especializada em compliance, gestão de riscos, tecnologia e inovação.

O levantamento ouviu 109 profissionais que atuam diretamente com o tema em empresas de diferentes portes, setores e regiões do país. Os dados do estudo indicam que 93% das empresas possuem norma formal contra assédio moral e sexual, um crescimento em relação a 2024, quando o índice era de 86%. Também houve avanço na existência de políticas formais de apuração de denúncias, que passaram de 79% para 91% no período.

Apesar da evolução, a maturidade das práticas ainda é desigual. Apenas 51% das organizações contam com políticas de apuração que incluem capítulos específicos para casos de assédio, mesmo após um crescimento de 13 pontos percentuais em relação ao ano anterior.

Para Daniela Aggio, diretora executiva de Forensics & Integrity da Protiviti, essa lacuna é crítica.

“A apuração de assédio exige protocolos próprios e metodologias diferentes das usadas em investigações de fraude ou outros ilícitos. Sem isso, há riscos de conduções inadequadas e de perda de credibilidade do processo.”

Riscos psicossociais e saúde mental seguem pouco estruturados

Mesmo com a entrada em vigor da NR-1 em maio deste ano, que ampliou a responsabilidade das empresas sobre riscos psicossociais, apenas 44% das organizações afirmam já ter mapeado esses riscos. Outros 39% ainda não fizeram o mapeamento, e 17% não sabem informar.

O tema da saúde mental também aparece como um ponto crítico. Segundo a pesquisa, 68% das empresas ainda não tratam questões como burnout e adoecimento emocional de forma adequada. Apenas 32% dos respondentes avaliam que o assunto é tratado de maneira séria e efetiva.

Liderança ainda despreparada para lidar com denúncias

Um dos dados mais sensíveis do estudo envolve o papel da liderança. Apenas 26% dos respondentes acreditam que os líderes saberiam reagir corretamente ao receber diretamente uma denúncia de assédio. A maioria (63%) avalia que saberiam agir apenas parcialmente, enquanto 11% afirmam que os líderes não saberiam como proceder.

 

“Na prática, muitos relatos chegam primeiro aos líderes diretos. Quando eles não estão preparados, o risco de revitimização, omissão ou condução inadequada é alto”, afirma Aggio.

 

O estudo também chama atenção para a proteção dos profissionais que atuam no combate ao assédio dentro das empresas. Apenas 57,8% afirmam contar com apoio da alta direção e proteção formal contra retaliações. Outros 29,4% relatam vulnerabilidades, e 12,8% preferiram não responder.

Alta direção ainda pouco envolvida formalmente

O levantamento revela ainda lacunas no patrocínio institucional. Apenas 68,8% das normas contra assédio e 64,2% das normas de apuração foram formalmente aprovadas pela alta direção com evidências documentais. Em 16,5% dos casos, nenhuma norma passou por aprovação formal.

Mesmo entre empresas que possuem políticas, apenas 56% contam com aprovação formal da alta direção para normas contra assédio, e apenas 26% para normas de apuração — um sinal de distanciamento entre discurso e governança efetiva.

Treinamentos crescem, mas ainda sem estrutura contínua

No campo da capacitação, houve avanço: 88% das empresas realizam algum tipo de treinamento sobre assédio, ante 79% em 2024. Destas, 44% promovem treinamentos recorrentes e estruturados para toda a organização.

Ainda assim, 12% não realizam qualquer tipo de treinamento, e 43% não possuem um plano formal e estruturado, o que preocupa diante das exigências da NR-1 e da Lei nº 14.457/22.

“Evoluir no combate ao assédio exige mais do que cumprir requisitos legais. É preciso compromisso genuíno da liderança, investimento contínuo em capacitação e mecanismos reais de proteção contra retaliações”, diz Aggio.

Fonte: Exame

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